A BANDEIRA DE GUERRA
Após a Primeira Guerra Mundial um ditador ensandecido lançou o poder de fogo de toda uma nação com o objetivo de conquistar o mundo. A ascensão do Terceiro Reich na Alemanha, do Fascismo na Itália e uma expansão de regime militar no Japão forçaram os países aliados a se unirem para oferecer resistência em nome da democracia. Em dezembro de 1941 a base norte-americana de ‘Pearl Harbor' foi atacada por uma esquadra Japonesa e os Estados Unidos entraram na guerra. No ano de 1942 uma reunião em Petrópolis, Rio de Janeiro, contando com os chanceleres de todas as Américas decidiu que qualquer agressão a qualquer ponto das Américas, fosse do Norte ou do Sul, desencadearia uma reação em comum. Enquanto o conflito acontecia no outro lado do mundo, submarinos alemães começaram a afundar navios brasileiros, cinco deles em apenas uma noite. Em 31 de agosto de 1942 o Brasil declarou guerra e passou a integrar a União dos Países Aliados contra o nazismo. Estava armado o cenário para que se desenrolasse o maior acontecimento bélico da história até os dias de hoje: a Segunda Guerra Mundial. Dentre os incontáveis heróis que ali surgiram destacou-se um punhado de homens que marcaram seus nomes nas páginas da história: os integrantes do Primeiro Grupo de Aviação de Caça. O ‘SENTA A PUA'.
Tudo começou com o decreto 6.123, assinado em 18 de dezembro de 1943 pelo então Presidente da República Getúlio Vargas: nasceu ali o 1 o Grupo de Aviação de Caça. Em 27 de dezembro o Major Nero Moura foi nomeado Comandante do grupo com a missão de liderar em combate um contingente dos melhores pilotos de nossa nação. Nero Moura recrutou 32 homens e embarcou com eles para a Escola Tática Aérea em Orlando, Flórida, em 3 de Janeiro de 1944. Outros voluntários seguiram para Albrook Field, no Panamá, para aguardar o comandante e seus homens-chave.
O TREINAMENTO EM AGUADULCE
Os homens-chave de Nero Moura juntaram-se ao restante do Grupo em 18 de março de 1944, na Base Aérea de Aguadulce para dar continuidade aos treinamentos de guerra. No dia 11 de maio o 1 o Grupo de Caça passou a operar como uma unidade independente participando do esquema de defesa do canal do Panamá. O Coronel Gabriel P. Disosway foi designado pela USAF (United States Air Force) para, juntamente com o Comandante Nero Moura, orientar e preparar os pilotos brasileiros até estarem aptos a combaterem no Teatro de Operações da Itália.
A CAMINHO DO CONFRONTO DECISIVO
O 1 o Grupo de Caça deixou a base aérea de Aguadulce e seguiu para Nova Iorque, desembarcando no dia 04 de julho. De lá seguiram para Suffolk Field, em Long Island, onde concluíram os treinamentos e foram apresentados ao P-47 THUNDERBOLT, moderno caça da USAF que iriam utilizar até o final da guerra. Em 19 de setembro embarcaram para a Itália a bordo do navio Francês UST COLOMBIE, confiscado pela marinha norte-americana, desembarcando no porto de Livorno, Itália, em 06 de outubro de 1944, seguindo imediatamente para a base aérea de Tarqüinia. O contingente de pilotos brasileiros passou então a operar como parte integrante do 350 th Fighter Group com o nome de ‘1 st Brazilian Fighter Squadron'. Entre pilotos e pessoal de terra estavam 06 enfermeiras brasileiras que, voluntariando-se, abdicaram dos próprios lares a fim de prestar ajuda e engrossar as fileiras dos aliados contra o nazismo.
Ainda a caminho da Itália os pilotos sentiram a necessidade de criar um brasão, um símbolo para sua unidade. Pelas mãos do Capitão Aviador Fortunato Câmara de Oliveira surgiu o “avestruz”, valendo-se de uma referência ao estômago forte de nosso pessoal, capaz de adaptar-se à culinária estrangeira mesmo que habituados ao tempero brasileiro. Acompanhando o emblema surgiu também o grito de guerra do 1 o Grupo de Aviação de Caça: “SENTA A PUA !”, uma expressão popular da época definida, segundo Austregésilo de Athayde, como “lançar-se sobre o inimigo com decisão e vontade de aniquilá-lo”.
TARQÜINIA
Tarqüinia era uma cidade de características medievais e aspecto rudimentar. As condições de instalação eram precárias e a base resumia-se em um aglomerado de tendas e barracas sem muito conforto. As pistas dos aviões eram complementadas com imensas chapas de ferro, o que fazia dos pousos e decolagens um risco a mais para os pilotos. Em 14 de outubro de 1944 o ‘1 st Brazilian Fighter Group' plantou no solo italiano a bandeira do Brasil.
VOANDO NO INFERNO
O objetivo de guerra consistia em três estágios :
1 o – Obtenção da superioridade aérea : deixar o espaço aéreo livre para as operações em terra eliminando aeronaves hostis .
2 o – Interdição do campo de batalha: considerada a forma mais arriscada de se perder um piloto em combate. O objetivo consistia em anular ou destruir quaisquer alvos estratégicos que pudessem favorecer o avanço ou o abastecimento do inimigo. Tais ataques exigiam mais do piloto e tinham um grande índice de baixas.
3 o – Cooperação com forças terrestres: cumpridos com os objetivos anteriores, os pilotos forneceriam apoio tático aos soldados do exército em suas atividades. Os brasileiros encontraram a guerra na Itália já em sua segunda fase de combate.
PISA
No início de dezembro o grupo deslocou-se de Tarqüinia para a cidade de Pisa e a situação dos brasileiros melhorou em termos de conforto. Os pilotos foram hospedados em um prédio conhecido como “Albergo Nettuno”, que embora estivesse avariado pelos bombardeios inimigos apresentava melhores condições do que os acampamentos de Tarqüinia. Próximo ao Natal receberam a visita do então Ministro de Guerra General Eurico Gaspar Dutra e do Embaixador Brasileiro na Itália Livre, Vasco Leitão da Cunha.
NAS LINHAS INIMIGAS
Alguns pilotos do 1 o Grupo de Caça enfrentaram a própria sorte ao serem abatidos nas linhas inimigas, convivendo com os partisanos e contando com sua ajuda para escapar da captura pelos soldados alemães. Um deles, em especial, o Tenente Danilo Marques Moura, conseguiu retornar às linhas amigas por conta própria, atravessando o território ocupado sem ser reconhecido pelos nazistas.
NAS GARRAS DOS NAZISTAS
Outros pilotos também foram abatidos muito longe das linhas amigas e sofreram a captura. Prisioneiros até o término do conflito na Itália, conheceram as prisões nazistas e seus campos de concentração, travando uma guerra pessoal pela sobrevivência até novamente ganharem a liberdade.
A OFENSIVA DA PRIMAVERA
Em 04 de abril de 1945 o comando do Teatro do Mediterrâneo ordenou uma série de investidas contra os alemães que ficou conhecida como “Ofensiva da Primavera”. Com as baixas crescentes e sem recompletamento – embora não faltassem voluntários, impedidos de ir para a Itália pelas malhas da burocracia – o 1 o Grupo de Caça passou a operar com três esquadrilhas somente e obrigados a voar entre 2 e até 3 missões em um mesmo dia com uma sobrecarga muito maior do que a dos companheiros norte-americanos. Em 21 de abril de 1945 chegou às mãos do Major Richard Holland, oficial de informações do 350 th Fighter Group, um informe do 5 th Exército à respeito das cabeças de ponte ao sul do Rio Pó, um importante ponto estratégico para que os alemães pudessem reagrupar suas forças e manter uma forte resistência aos avanços aliados. Para evitar que as tropas inimigas se reorganizassem era necessário estabelecer uma cabeça de ponte ao norte deste mesmo rio a fim de garantir que a retirada alemã não se consumasse. O trabalho do 1 o Grupo de Caça contribuiu diretamente para o estabelecimento desta cabeça de ponte e consequentemente para a conclusão rápida da campanha
A data de 22 de abril de 1945 foi um marco histórico para o 1 o Grupo de Caça que realizou 11 missões de 44 sortidas contando com um número reduzido de pilotos. O desempenho exemplar do 1 o Grupo de Caça no 22 de abril lhes rendeu uma importante recomendação: a Medalha Presidencial Americana (Presidential Unit Citation). Devido às normas da época, segundo as quais tal premiação seria destinada somente à unidades norte-americanas, a cerimônia realizou-se apenas em 22 de abril de 1986 na Base Aérea de Santa Cruz, Rio de Janeiro. O 22 de abril consagrou-se também como o aniversário do grupo de Caça.
O FIM DA GUERRA
Em 02 de maio de 1945 foram suspensas todas as missões aéreas, pois a Alemanha havia assinado sua rendição incondicional na Itália e na Áustria. Em seis meses de operação do 1 o Grupo de Aviação de Caça, 5.465 horas, 445 missões e 2.550 missões individuais, ficou um saldo extraordinário que traduziu o desempenho brasileiro durante a Segunda Grande Guerra:
4.442 BOMBAS LANÇADAS (1.010 TONELADAS)
1.180.200 CARTUCHOS DE MUNIÇÃO DISPARADOS
850 FOGUETES LANÇADOS
25 PONTES DESTRUÍDAS
51 PONTES DANIFICADAS
03 REFINARIAS DE GASOLINA DESTRUÍDAS
02 REFINARIAS DE GASOLINA DANIFICADAS
31 DEPÓSITOS DE COMBUSTÍVEL E MUNIÇÃO DESTRUÍDOS
15 DEPÓSITOS DE COMBUSTÍVEL E MUNIÇÃO DANIFICADOS
19 EMBARCAÇÕES PEQUENAS DESTRUÍDAS
149 EDIFÍCIOS OCUPADOS DESTRUÍDOS
104 EDIFÍCIOS OCUPADOS DANIFICADOS
148 INSTALAÇÕES EM GERAL DESTRUÍDAS
70 INSTALAÇÕES EM GERAL DANIFICADAS
85 POSIÇÕES DE CANHÃO DESTRUÍDAS
15 POSIÇÕES DE CANHÃO DANIFICADAS
412 CORTES EM ESTRADAS DE FERRO
13 LOCOMOTIVAS DESTRUÍDAS
92 LOCOMOTIVAS DANIFICADAS
250 CARROS DE ESTRADA DE FERRO DESTRUÍDOS
835 CARROS DE ESTRADA DE FERRO DANIFICADOS
02 AVIÕES DESTRUÍDOS NO SOLO
09 AVIÕES DANIFICADOS NO SOLO
08 VEÍCULOS BLINDADOS DESTRUÍDOS
13 VEÍCULOS BLINDADOS DANIFICADOS
1.034 VEÍCULOS AUTOMÓVEIS DESTRUÍDOS
686 VEÍCULOS AUTOMÓVEIS DANIFICADOS
79 VEÍCULOS DE TRAÇÃO ANIMAL DESTRUÍDOS
19 VEÍCULOS DE TRAÇÃO ANIMAL DANIFICADOS
01 NAVIO DANIFICADO
Embora as missões do grupo fossem equivalentes a somente 5% do total do 22n d Tactical Air Command, a percentagem de resultados obtidos foi espantosa. O saldo registrado no período de 06 a 29 de abril de 1945 foi o seguinte:
85 % DOS DEPÓSITOS DE MUNIÇÃO DANIFICADOS
36 % DOS DEPÓSITOS DE GASOLINA DANIFICADOS
28 % DAS PONTES DESTRUÍDAS
19 % DAS PONTES DANIFICADAS
15 % DOS VEÍCULOS AUTOMÓVEIS DESTRUÍDOS
13 % DOS VEÍCULOS AUTOMÓVEIS DANIFICADOS
10 % DOS VEÍCULOS DE TRAÇÃO ANIMAL DESTRUÍDOS
10 % DOS VEÍCULOS DE TRAÇÃO ANIMAL DANIFICADOS
Com o término da Segunda Guerra Mundial começaram a regressar os prisioneiros e fugitivos brasileiros, resgatados pelos próprios companheiros nas áreas onde haviam sido abatidos, e iniciaram-se os preparativos para a volta ao lar.
OS 23 PILOTOS QUE VOARAM ATÉ O FINAL DA GUERRA
Ten. Cel. Av. Nero Moura
Cap. Av. Newton Lagares
Cap. Av. Horacio M. Machado
Cap. Av. Roberto P. Ramos
1 o Ten. Av. Luiz Felipe Perdigão
1 o Ten. Av. Newton N. de Figueiredo
1 o Ten. Av. Rui Moreira Lima
1 o Ten. Av. Alvaro Eustógio
2 o Ten. Av. Alberto M. Torres
2 o Ten. Av. Paulo Costa
2 o Ten. Av. José Meira de Vasconcelos
2 o Ten. Av. Helio Keller
2 o Ten. Av. Pedro de Lima Mendes
2 o Ten. Av. Renato Goulart Pereira
2 o Ten. Av. Leon R. Lara
2 o Ten. Av. Armando S. Coelho
2 o Ten. Av. Fernando Rocha
2 o Ten. Av. Fernando P. Mocellin
Asp. Av. Raymundo Canario
Asp. Av. Roberto Tormim
Asp. Av. Diomar Menezes
Asp. Av. Jorge Pocinha
Asp. Av. Fernando B. Morgado
(*) 2 o Ten. Av. Milton Prates ( Suspenso de vôo por motivo de doença )
SANGUE VERDE E AMARELO
Em 06 de julho de 1945 a maioria dos integrantes do 1 o Grupo de Aviação de Caça – juntamente com o primeiro escalão da Força expedicionária – retornou ao Brasil a bordo do navio General Meighs, deixando o porto de Nápoles e atracando no cais da Praça Mauá 12 dias depois. Devido a um acordo feito entre americanos e brasileiros no qual o Ministério da Aeronáutica tinha direitos sobre 19 caças P-47 THUNDERBOLT, uma formação comandada pelo Tenente Coronel Aviador Nero Moura foi aos EUA pegar os aviões e deslocou-se pelo ar desde Kelly Field, no Texas, até o campo dos Afonsos no Rio de Janeiro, pousando em solo brasileiro a 16 de julho de 1945. Os veteranos de guerra foram homenageados em um desfile na avenida Rio Branco, saudados eufóricamente pela Nação Brasileira. Terminava assim a participação do 1 o GAvC na Segunda Guerra Mundial.